Hoje à tarde, logo depois da
minha sesta, em inusitado arroubo de autocrítica levantei pensando: ― “Ando muito preguiçoso, há quanto tempo não
faço uma postagem no meu blog Ler e
Reler”. Minhas coisas pararam no tempo. Não tenho ido ao clube para jogar
sinuca, não telefono para meus amigos, nem vou mais ao futebol como fiz durante
tantos anos, nem navego no Facebook com a regularidade esperada pelos meus
amigos e familiares. Nada, nada. Será que morri e não me avisaram? Dei uma beliscada
na cara, vi que doeu, continuei pensando: Tenho que fazer alguma coisa. Não
posso ficar a espera de alguém para me carregar no colo. Quando estava no auge
desses pensamentos lembrei-me de que tenho mais de 92 anos e nem consegui
renovar minha carta de motorista porque meu cérebro também está pensando em se
aposentar. Olhei para o relógio e vi que era hora da sesta. Fiz como quem pede
para ir lá fora, saí de fininho e fui para o meu quarto. Mas não conseguia
dormir... De repente minha esposa entrou no quarto e perguntou: “Que qué isso,
meu? Vai trabalhar um pouco que isso passa. Eu trabalho o dia inteiro, faço
ginástica, pajeio vocês, cuido da cozinha, dos netos, tenho tempo para aguar as
minhas plantas, e não fico por aí pedindo para o dia terminar logo...”. Fingi
que não tinha escutado nada e fiquei quieto. De repente ouvi um barulho de
papéis rasgados, rac, rac, rac. Dei
uma virada de leve embaixo das
cobertas, mas não adiantou...
Depois de uma pausa, um suave e
prolongado barulho de abrir e fechar gavetas. Parecia uma orquestra em suas
variações melódicas. Virei de novo para o outro lado, mas o abre e fecha ainda
demorou bastante. Quando pensei que ela houvesse desistido escutei o barulho da
torneira do banheiro jorrando água.
Continuei fingindo de morto, ela
pensou que eu estivesse dormindo e foi embora. Pensei comigo: “Só pode ser
inveja”. Dei um tempo. Nem muito que “pudesse parecer subserviência”, nem tão
pouco que pudesse parecer “autoritarismo”, como se diz nos quartéis.
Levantei rápido, tomei banho,
vesti minha roupa de briga, coloquei no rosto meu melhor sorriso e fui em
direção à cozinha: Encarei minha esposa. E com um olhar lambuzado de carinho e
compreensão dei-lhe um abraço apertado e disse:
―”Uma das melhores coisas que temos ainda é a democracia. Cada um faz o que gosta de fazer, desde que não prejudique ninguém. Você
gosta de trabalhar. Eu gosto de espreguiçar. Ela abriu um sorriso de quem ainda
não está com o dia ganho, foi se desvencilhando de mim e disse: “Isso sim, é
que é vida! hein, companheiro”.
Concordei com leve sorriso, puxei
uma cadeira e sentei para tomar o café. Depois dei uma lida apressada nas
manchetes do jornal e saí para regar o jardim. Deus avisa a hora de parar.
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